Sexta-Feira, 18 de Maio de 2012







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Não se surpreenda...
 
Texto:Rogério Fischer
Ilustração: Edvaldo Jacinto
junho 2011

Você brasileiro que mora em Londres, caso resolva curtir o Carnaval no Rio de Janeiro em 2012, não se surpreenda se algum folião mais exaltado lhe disser que o Brasil tem 28 estados mais o Distrito Federal. Os 26 de hoje podem virar 28 amanhã, caso a população do Pará diga sim à criação de Carajás e Tapajós. O Congresso aprovou a realização de plebiscito para eventual desmembramento do estado que, hoje, segundo o último censo, tem 7,58 milhões de habitantes distribuídos em 143 municípios, que ocupam 1,25 milhão de km².

Tapajós já nasceria como o 4º maior estado brasileiro, com 718 mil km², 1,7 milhão de habitantes e 29 municípios. Capital: Santarém. Carajás abrangeria 1,5 milhão de habitantes em 38 municípios, com extensão territorial de 288 mil km². Datam de muito antigamente movimentos que pedem desmembramento do Pará. A alegação é de que, assim, haveria de forma mais acelerada o crescimento socioeconômico da região, como teria ocorrido com Mato Grosso do Sul (separado do Mato Grosso) e, mais recentemente, com Tocantins, que rachou ao meio Goiás.

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Você brasileiro que mora em Manchester, caso resolva curtir a lua-de-mel em Brasília, não se surpreenda se algum garçom mais expansivo lhe confidenciar, no bar do hotel, que Antônio Palocci conseguiu a proeza de chegar ao poder como homem forte de dois governos e ser defenestrado de ambos. Superministro da Fazenda no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-prefeito de Ribeirão Preto saiu pela porta dos fundos, no auge da crise do mensalão, após quebrar o sigilo fiscal do caseiro Francenildo Santos Costa, que revelou ter visto Palocci frequentando com assiduidade uma mansão de lobistas.

Depois de um tempo em disfarçado ostracismo, elegeu-se deputado federal e agora com Dilma voltou ao poder como ministro-chefe da Casa Civil, mesmo cargo ocupado pela hoje presidenta no segundo mandato de Lula – cargo, aliás, que a catapultou como candidata à presidência. Bastaram alguns meses de Governo Dilma para o país descobrir que o patrimônio de Palocci cresceu 20 vezes nos últimos quatro anos. A oposição quer a cabeça dele. Dilma blinda-o como pode. Até apelou a Lula para apagar o incêndio. Com isso, perdeu autoridade política. E agora se vê na berlinda após manobra da oposição que aprovou, na marra, convocação do ministro na Comissão de Agricultura da Câmara para explicar seu patrimônio.

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Você brasileiro que mora em Dublin, caso resolva visitar o Congresso Nacional nas suas próximas férias, não se surpreenda se, ao passar pelo túnel do tempo, que expõe os fatos históricos protagonizados pelo Senado, não ver lá absolutamente nada sobre o impeachment de Collor de Mello, hoje senador pelo PTB de Alagoas. É que o presidente da Casa, José Sarney, mandou excluir dos painéis tudo que estivesse relacionado àquela passagem magistral – do ponto de vista da mobilização popular, claro – da nossa história.

Dada a esperada repercussão, Sarney – maranhense que há décadas se elege pelo Amapá – recuou e ordenou a volta dos painéis que retratam a derrubada do primeiro presidente eleito após o regime militar, mas não há nada que garanta que ele não mudará de ideia novamente. Afinal, segundo Sarney, o impeachment de Collor "não foi um fato marcante" que, para ele, "não deveria ter ocorrido". Então...

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Você brasileiro que mora em Galway, caso resolva, nos próximos anos, passar pela zona leste de São Paulo, não se surpreenda se deparar com uma enorme obra no coração de Itaquera. É que, depois de fazer, durante décadas, a alegria da indústria de maquetes, a Norberto Odebrecht iniciou, no final de maio, a construção do estádio do Corinthians, cujo presidente, Andrés Sanches, deu uma tacada de mestre.

Petista de carteirinha, aproximou-se de tal forma do então presidente Lula e do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que conseguiu do político a influência necessária para convencer uma grande construtora a investir na equipe paulista e do cartola obteve a canelada no sonho do São Paulo em ter o Morumbi como estádio de abertura da Copa de 2014. Se nada der errado, o Corinthians, depois de 100 anos, terá seu estádio de verdade – e que abrirá o Mundial. Mas muita água ainda rolará pelo córrego de Aricanduva.

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Você brasileiro que mora em Bournemouth, caso resolva passar as férias de verão no Rio de Janeiro daqui a alguns anos, não se surpreenda se ler em algum jornal carioca que, em vez de Ricardo Teixeira, a CBF tiver outro presidente, porém com o mesmo DNA. Ocorre que já circula nos bastidores o boato de que, no lugar de Andrés Sanches, Teixeira já estaria pensando na própria filha – e, portanto, neta de João Havelange – para sucedê-lo na entidade.

O mar de lama no qual se atolou o presidente da Fifa, Joseph Blatter, respingou também em Teixeira, que, segundo a BBC, teria recebido propina durante anos da ISL, empresa de marketing esportivo que negociava os direitos de transmissão dos mundiais. Absolvido pela Comissão de Ética da Fifa, Teixeira apoiou mais uma reeleição de Blatter, sacramentada no último dia 1º. Depois de ser alvo de CPI no Congresso, não se surpreenda se daqui a alguns anos você vir Teixeira na presidência da Fifa – ou numa cela qualquer.





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