O GEB – Grupo de Estudos sobre Brasileiros no Reino Unido – organizou no dia 19 de janeiro, no Institute for the Study of the Americas, o segundo bate-papo com pesquisadores e representantes da comunidade em Londres. Intitulado “Dialogando com Brasileiros na Diáspora II”, o encontro teve como objetivo a discussão do papel do brasileiro fora de sua sociedade, o que ele vem fazendo em Londres e os problemas que enfrenta ao viver longe do Brasil.
Diáspora significa a dispersão de um povo, a emigração de uma comunidade, levando com ela sua cultura, língua e costumes. E, por isso, a discussão foi proposta pelo GEB, que vem estudando a comunidade brasileira que mora no Reino Unido desde 2008.
Mesas de discussão
Na primeira das duas mesas de discussão, Carlos Mellinger, da Casa do Brasil, relatou problemas comuns vividos pelos brasileiros. “Baseados em casos reais, acredito que a falta de documentação é sem dúvida o maior deles. Logo depois vem a barreira linguística, que não ajuda nem mesmo os que estão de passagem, porque já aconteceram casos de brasileiros serem presos porque não conseguiam se explicar. E depois vem a falta de trabalho, agravada pela crise, ameaças de empregadores devido à ilegalidade, a exploração por parte de imigrantes e dos próprios brasileiros, e a alta falsificação de documentos”, aponta.
Além dos problemas citados, outros como dificuldade de abrir contas bancárias e acesso a médicos e escolas também são frequentes e agravados pela falta de conhecimento da língua inglesa. Segundo Mellinger, a elaboração de uma cartilha explicativa poderia ajudar o brasileiro, ainda no Brasil, saber previamente as dificuldades que poderá passar no país escolhido e ajudar na decisão de emigrar ou não.
Representando a IOM – International Organization for Migration -, Gabriela Boeing apresentou o programa de retorno voluntário ao Brasil oferecido pela entidade. Para ser aceito no programa, o brasileiro deve estar de forma irregular no país e não ter nenhum envolvimento criminal. “Em 2009 foram 647 retornos ao Brasil, seguido pela Bolívia, com 159, e a China, com 111. Recebemos vários casos, como o de mães solteiras com filhos, famílias de até cinco pessoas e muitos outros”, conta Boeing.
Já o pastor batista Daniel Clark falou sobre a importância dos pontos de encontro para a comunidade. “Os brasileiros procuram dignidade e cidadania neste país. Fazem isto através da igreja e outros lugares em que se encontram. São os pequenos brasis, locais em que estão os amigos, a família e onde podem trocar ideias.”
A última palestrante da primeira mesa foi a Dra. Cathy McIlwaine, professora de geografia da Queen Mary University of London. Pesquisando comunidades da Colômbia, Bolívia e Equador, ela viu a necessidade de dar mais atenção ao Brasil, país que detém o maior número de imigrantes da América Latina a Londres.
Em seu último estudo foram realizadas 450 entrevistas com brasileiros, que procuravam mostrar porque eles saem do Brasil, a escolha por Londres e qual o tipo de contato mantido com o próprio país. “Constatamos em nossa pesquisa que há mais mulheres (55%) do que homens em Londres, que a maioria vem de São Paulo, seguida por Goiás e Paraná; e que a primeira opção por deixar o Brasil é econômica”, diz McIlwaine. “Além disso, a grande maioria manda dinheiro para casa e cerca de 98% dos entrevistados está em contato direto com a família, sendo 38% todos os dias”, relata.
Consulado, igreja e ABRIR
Com a ausência do embaixador brasileiro em Londres, Valter Pecly Moreira, o diplomata Cícero Garcia compareceu para representar o consulado. Ele apresentou os principais trabalhos prestados pelo órgão, que são a emissão de passaportes (cerca de 40 a 70 diariamente); vistos e legalização de documentos britânicos para ter validade no Brasil (sem, porém, endossar os mesmos).
Garcia afirmou que o consulado procura ajudar o brasileiro no que for possível, porém, “no que diz respeito a falecimento, o consulado não pode, por lei, transportar o corpo para o Brasil”, ressalta. Também de acordo com Garcia, “o consulado não faz nada em relação ao (imigrante) ilegal, o problema é quando ele decide falsificar documentos, daí sim vira crime”.
Os padres da Capelania Católica Brasileira, José Geraldo e João Neto, também contaram um pouco do trabalho desenvolvido junto à comunidade. “Nós atendemos todos que estiverem no Reino Unido. Há sete anos tínhamos uma igreja emprestada para realizar nossas missas e hoje já temos nove. Damos apoio aos brasileiros em relação a ficar ou voltar, ajudamos os deprimidos, os dependentes químicos, fazemos reuniões, além dos trabalhos oficiais da Igreja, como missas, batizado, confissão e casamento”, diz padre José.
Segundo o padre João, um futuro projeto – a Casa Samaritano – buscará, através do trabalho de voluntários, dar mais suporte às pessoas que falam português.
Finalizando o encontro, Cláudio Souza, da ABRIR – Associação Brasileira de Iniciativas Educacionais no Reino Unido -, falou sobre o trabalho da instituição que enfoca as atividades ligadas à educação, como a criação de material didático e paradidático e do ensino de português para brasileiros nascidos aqui, “que é diferente do ensino no Brasil, pois a realidade da criança é outra”, afirma.
Souza também abordou a possibilidade do curso supletivo de segundo grau ser realizado no Reino Unido, para que “ao ser regularizado pelo MEC (Ministério da Educação), a pessoa possa voltar para o Brasil já com os estudos completos, como acontece (com os brasileiros vivendo) no Japão”.